
Nos últimos tempos, uma narrativa tem sido repetida à exaustão por figuras da extrema-direita brasileira: a de que o país estaria vivendo uma “ditadura de toga”. A expressão, cunhada por setores inconformados com os avanços da Justiça sobre atos antidemocráticos, tem sido usada como escudo retórico por quem, ironicamente, promoveu - e ainda promove - uma agenda autoritária e antirrepublicana.
É impossível tratar desse debate sem olhar para trás. Durante o governo de Jair Bolsonaro, o Brasil presenciou uma série de episódios que colocaram em risco o próprio Estado democrático de Direito. A militarização da gestão pública, o estímulo ao armamento da população, os ataques sistemáticos à imprensa, a perseguição a opositores e a tentativa de desmoralizar instituições como o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional formaram a espinha dorsal de um projeto político que flertou perigosamente com o autoritarismo.
Bolsonaro, com o discurso de que “bandido bom é bandido morto”, fez arminha com as mãos enquanto milhares morriam de Covid-19. Disse que não era coveiro, enquanto ignorava vacinas e promovia aglomerações. Falou em metralhar adversários ideológicos. Estimulou a criação de CACs como exército paralelo. Disse que fecharia o Supremo com um soldado e um cabo. Promoveu desfiles militares em Brasília para constranger o Legislativo. E, ao fim do mandato, se recusou a reconhecer a derrota nas urnas, alimentando teorias conspiratórias sobre o sistema eleitoral - o mesmo que o elegeu por três décadas.
Os crimes pelos quais é investigado hoje - tentativa de golpe, uso indevido da máquina pública, falsificação de dados e sabotagem institucional - são gravíssimos. Mas seus apoiadores seguem apontando o dedo para a Justiça, como se o problema fosse a mão que aplica a lei.
É diante desse cenário que se faz necessário refletir: quem realmente ameaçou a democracia neste país?
O ministro Alexandre de Moraes, presidente do STF, passou a ser alvo preferencial dos que confundem liberdade de expressão com licença para pregar o caos. Moraes pode e deve ser cobrado por suas decisões - como qualquer autoridade pública. Mas é preciso distinguir crítica legítima de discurso de ódio, oposição política de sabotagem institucional.
A retórica da “ditadura de toga” tenta inverter a lógica dos fatos. Quem tentou subverter a ordem agora se apresenta como vítima. Quem desrespeitou a Constituição quer posar de defensor da liberdade. Mas democracia não é impunidade. Liberdade não é sinônimo de irresponsabilidade. E a Justiça, quando age dentro dos limites legais, não é tirania - é proteção ao Estado de Direito.
A história julgará os atos e os atores deste tempo. Até lá, é nosso dever, enquanto imprensa livre, lembrar que a mentira se combate com a verdade. Quem de fato atentou contra a democracia não foi a toga, mas o populismo de extrema-direita travestido de patriotismo.
*Editorial do jornal Notícias da Manhã da rádio Espinharas FM de Patos 97.9 em 25 de julho de 2025.