
Nesta segunda (02), o jornalista Luiz Torres, da Arapuan, trouxe à tona uma confissão que ainda ecoa como dinamite política: Julian Lemos, eleito em 2018 surfando a onda do bolsonarismo — 71.899 votos de carona no mito — admitiu que, desde 2015, cansou de ouvir Jair Bolsonaro dizer: “Meu amigo, quem manda no Brasil é quem tem a chave do paiol.”
Mas aqui está o ponto crucial: Bolsonaro falava em metáfora, insinuando que o poder se mede pela pólvora, pela força bruta. Só que, na prática, a chave do paiol não está nem nas mãos do Exército, nem sob os cofres da República. Ela foi parar nos bolsos das facções criminosas. O Primeiro Comando da Capital (PCC) reina no Sudeste e se expande silenciosamente pelo Norte; o Comando Vermelho (CV) mantém seu império no Rio de Janeiro e no tráfico internacional; a Família do Norte (FDN) disputa a Amazônia como corredor estratégico da cocaína; e a Okaida e Guardiões do Estado (GDE) aterrorizam o Nordeste, impondo toque de recolher e mostrando força de fuzil em bairros inteiros. Cada uma delas ostenta Glock austríaca, fuzil AR-15 e metralhadora ponto 50 como se fossem extensão do próprio corpo. Um poder paralelo que faz até a caneta de ministro parecer brinquedo de papel.
O contraste é perturbador: o ex-presidente transformava o paiol em discurso de palanque; já o crime organizado transformou em realidade concreta, visível nos bailes funks, nas vielas e até nas rodovias. E o mais inquietante é que nem mesmo as forças de segurança pública possuem armamento compatível para enfrentar esse arsenal.
E o que fazem as instituições? Não apenas se calam — escolhem a cegueira seletiva, como quem coloca uma venda voluntária para não enxergar a óbvia convergência entre metáfora e realidade. Porque, no fim, tanto o discurso quanto a prática apontam para o mesmo destino: quem controla o paiol, controla o país.
CR10 na área “BILANDO” a cidade.