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O culto, o deboche e a propaganda eleitoral extemporânea com dinheiro público

A escola de samba Acadêmicos de Niterói seguiu à risca a recomendação de Lula feita no último dia 7 de fevereiro, na Bahia, quando afirmou que “acabou o Lulinha paz e amor” e convocou a militância para “uma guerra” nas eleições deste ano, partindo literalmente para o ataque.

Célio Martinez
Por: Célio Martinez
17/02/2026 às 10h28 Atualizada em 17/02/2026 às 12h05
O culto, o deboche e a propaganda eleitoral extemporânea com dinheiro público

Célio Martinez.

Não bastou apenas o culto explícito seguido da propaganda eleitoral extemporânea em ano eleitoral, paga com o dinheiro do contribuinte, não. Era preciso esnobar os adversários políticos, chutando cachorro morto; famílias evangélicas e todos aqueles que se opõem ao Projeto de Poder do presidente. E a escola de samba Acadêmicos de Niterói seguiu à risca a recomendação de Lula feita no último dia 7 de fevereiro, na Bahia, quando afirmou que “acabou o Lulinha paz e amor” e convocou a militância para “uma guerra” nas eleições deste ano, partindo literalmente para o ataque.

Na abertura do Grupo Especial das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, o desfile da Acadêmicos de Niterói extrapolou os limites da arte, da crítica social e, segundo juristas, da própria legislação eleitoral. O samba-enredo, os símbolos, as mensagens e até o refrão entoado — “olê, olê, olê, olá, Lula!, Lula!” — não deixaram margem para dúvidas: tratou-se de propaganda política antecipada, explícita e deliberada, sob a confortável certeza da impunidade garantida por uma Justiça seletiva.

Além de desafiar frontalmente a lei, o desfile avançou sobre um terreno ainda mais sensível: o do ataque pessoal e ideológico aos adversários políticos do presidente, com cenas de deboche envolvendo a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro e referências pejorativas ao modelo de família cristã adotado por milhões de evangélicos brasileiros, evidenciando uma preocupante intolerância religiosa. O Carnaval, que sempre foi espaço de crítica e irreverência, foi instrumentalizado como palanque político e arena de escárnio.

Chama atenção, ainda, o volume de recursos públicos envolvidos. A escola recebeu cerca de R$ 1 milhão do Ministério da Cultura e da Embratur, mais R$ 5,1 milhões via Lei Rouanet, todos ligados ao governo federal, além de R$ 1 milhão da Prefeitura de Niterói e R$ 4 milhões da Prefeitura do Rio de Janeiro, ambas administradas por aliados políticos do presidente. Ou seja, dinheiro do contribuinte financiando um espetáculo que, longe de ser plural, serviu a um projeto político específico.

É verdade que, durante o culto ao presidente — digo, o desfile —, foram exibidos avanços sociais atribuídos aos governos do PT. O que não apareceu na avenida foi o outro lado da história: quase duas décadas marcadas por escândalos de corrupção que entraram para os anais da República. Como bem observou o senador Sérgio Moro, não houve carro alegórico para o Departamento de Propina da Odebrecht, para o sítio de Atibaia ou para o tríplex do Guarujá. Não se viu Marcos Valério, nem o mensalão, tampouco referências aos Correios, à Lava Jato, ao petrolão ou, mais recentemente, às denúncias envolvendo aposentados e pensionistas do INSS e a fraude no Banco Master. A memória seletiva também desfilou.

A cena do “Bôzo” preso em uma gaiola escancarou o espírito de vingança que permeou a apresentação. Aquele que outrora foi condenado por CORRUPÇÃO se permite agora deleitar-se com o infortúnio do maior adversário político, condenado em um engenhoso processo conduzido por Alexandre de Moraism no STF, certo de que este não conta com “companheiros” na mais alta Corte do país capazes de reverter seu destino. Para alguns, a vingança só estará completa quando o adversário estiver definitivamente eliminado do jogo político — de preferência, atrás das grades.

O Brasil assiste, atônito, a uma rápida deterioração da institucionalidade e dos costumes políticos. O desfile da Acadêmicos de Niterói foi apenas mais um sintoma dessa normalização do ilícito e do inaceitável. Na longa lista de escândalos recentes, este entra como mais um episódio emblemático.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, foi direto ao comparar o desfile com os episódios que levaram à condenação e à inelegibilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro, como a reunião com embaixadores e as comemorações do bicentenário da Independência. “Pois bem, se o desfile de ontem não foi propaganda antecipada, o que será então? Por que não haverá o mesmo rigor agora?”, questionou. “Tá valendo tudo. E nesse vale tudo, quem é que perde? Perde o Brasil. Perde a oportunidade de investigar o motivo da nossa estagnação. Perdem-se oportunidades uma atrás da outra”, concluiu, em tom de desengano.

No fundo, muitos já sabem a resposta. A enxurrada de ações oposicionistas dificilmente resultará em algo concreto. Para qualquer outro pré-candidato, o peso da lei seria imediato e implacável. Para Lula, ao que tudo indica, não. E quando a lei deixa de ser igual para todos, quem perde não é a oposição ou o governo: é a democracia brasileira.

Imagem ilustrativa produzida por IA.

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