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O Enredo da soberba e o destino dos que confundem aplauso com eternidade

Ao transformar adversários em caricatura e tratar Jair Bolsonaro como figura definitivamente neutralizada, o enredo vendeu a tese da morte política irreversível.

CR10
Por: CR10
17/02/2026 às 19h08
O Enredo da soberba e o destino dos que confundem aplauso com eternidade

O Brasil amanheceu de ressaca após o desfile da Acadêmicos de Niterói — mas não por conta das bebidas alcoólicas. A vertigem foi política. O enredo que atravessou a avenida veio embalado em exaltação explícita ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, críticas diretas aos adversários, alegorias com um “Bôzo” em gaiola e a representação da família conservadora dentro de latas de conserva. Jornalistas, comentaristas e influenciadores seguem divididos: uns tratam como manifestação artística legítima; outros apontam propaganda eleitoral extemporânea financiada com dinheiro público. Há quem enxergue crítica; há quem veja palanque. Mas quase ninguém percebeu a armadilha simbólica criada pelos carnavalescos militantes e com a anuência de Lula.

Ao transformar adversários em caricatura e tratar Jair Bolsonaro como figura definitivamente neutralizada, o enredo vendeu a tese da morte política irreversível. Ao enlatarem a família conservadora, quiseram sugerir atraso, museu, coisa guardada por falta de utilidade. Só esqueceram que conserva é aquilo que se preserva para atravessar o tempo. A metáfora traiu o roteiro.

Mas o problema maior não é estético. É histórico.

Quando um líder começa a agir como se estivesse acima do desgaste, quando convoca guerra política permanente e naturaliza o deboche como método, ele entra na mesma estrada percorrida por personagens que acreditaram ser maiores que o tempo.

Maximilien Robespierre foi um dos rostos centrais da Revolução Francesa e protagonista do chamado Período do Terror. Em nome da virtude revolucionária, legitimou guilhotinas. Terminou nelas. A máquina que ajudou a movimentar o engoliu.

Joseph Stalin emergiu da Revolução Russa e consolidou o regime soviético com expurgos, perseguições e culto à personalidade. Reinou pelo medo. Morreu isolado, cercado de silêncio e desconfiança, temido até pelos que lhe deviam lealdade.

Getúlio Vargas atravessou revoluções, instaurou o Estado Novo, concentrou poder e enfrentou crises que culminaram, oficialmente, em seu suicídio com um tiro no peito — versão histórica consagrada, ainda que não faltem vozes que, décadas depois, insistam em levantar sobrancelhas e perguntas. De uma forma ou de outra, o desfecho foi trágico e definitivo.

Nenhum deles se via como transitório.

Na biologia, há um fenômeno curioso: a pequena água-viva Turritopsis dohrnii consegue, em condições específicas, reiniciar seu ciclo de vida. É uma exceção microscópica da natureza. Fora isso, não há reinado permanente. Não há mandato eterno. Não há governo que escape da erosão do tempo.

A crítica aqui não é contra o carnaval. É contra a soberba política. É contra a tentação de se imaginar acima da alternância, acima da crítica, acima da própria história.

E há algo ainda mais inquietante.

Se a intenção dos carnavalescos foi apenas denegrir, zombar da fé e reduzir a família conservadora a caricatura, talvez tenham tropeçado num princípio que desconhecem ou desprezam. A Escritura já advertia: “Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias” (1 Coríntios 1:27). O que era para ridicularizar pode consolidar. O que era para humilhar pode fortalecer. O que era para encerrar pode reacender.

Enquanto se comemorava a suposta morte simbólica de um campo político, pode ter-se alimentado exatamente o sentimento que o mantém vivo. Enquanto se ironizava a fé, pode ter-se ampliado a convicção de quem se sente atacado. Enquanto se falava em fim, pode ter-se escrito um novo capítulo.

A história é implacável com governantes que confundem popularidade com permanência. Aplausos não blindam biografias. Carros alegóricos não garantem legado. E quem começa a agir como se fosse imortal politicamente costuma descobrir, tarde demais, que não passa de mais um nome na longa lista dos que acreditaram controlar o tempo — até que o tempo os controlou.

Talvez o maior erro não tenha sido a provocação. Talvez tenha sido a presunção. Porque quando um líder começa a se comportar como se estivesse destinado à eternidade, a história afia suas lâminas. E elas não costumam desfilar em avenida: cortam em silêncio.

CR10 na área “BILANDO” a cidade

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