
“Dizem que, quando há aplausos no começo, não importa tanto. Se houver alguém acordado para aplaudir no fim…” — alertou Leão XIV. Só esqueceu de avisar que, no Brasil, ninguém fica acordado tempo suficiente para ver o fim.
A política por aqui virou espetáculo de estreia sem ato final. Exemplo é o famigerado Teatro Municipal de Patos/PB, fincado exatamente onde um dia repousaram os corpos de almas à espera da salvação eterna. Hoje, quem repousa ali é o concreto abandonado — e a fé do povo, enterrada junto ao sonho da cultura. Onde antes se esperava o juízo final, agora se espera — sem muito juízo — a bendita inauguração. E que ironia: tanto os mortos quanto os vivos seguem aguardando.
Já são mais de 10 anos de espera, superando até mesmo a saga da Igreja do Horto, iniciada por Padre Cícero em 1899, interrompida por décadas e que só agora em 2024 teve uma cerimônia de dedicação — mesmo sem estar totalmente concluída. A diferença? Lá a espera virou romaria. Aqui, virou vergonha.
A promessa de arte e espetáculo foi substituída por silêncio, verbas complementares e esquecimento. O palco? Nunca viu uma peça. As cadeiras? Nunca presenciaram aplausos. Quem reina é o lixo encenando a decadência e o mofo como iluminação cênica. Uma verdadeira peça de terror urbano — sem figurino, sem público, mas com cenário digno de um filme de terror.
E a coisa não para por aí. A cena se repete no Ginásio de Esportes “O Rivaldão”, que foi reinaugurado sem as grades de proteção na lateral voltada para o traiçoeiro Rio Espinharas. Uma obra inacabada com certificado de inauguração: é como vender um carro sem freio, mas com fita vermelha no capô. Afinal, por aqui, o que vale é o evento, não a entrega.
E no coração dessa tragédia tropical está o famigerado reequilíbrio econômico-financeiro. Em teoria, serve para ajustar os contratos e garantir que os custos sejam cobertos de forma justa. Na prática, virou senha para liberar verbas complementares que somem mais rápido que gato em telhado de repartição pública. E a pergunta ressurge em coro: “Aonde está o dinheiro? O gato comeu!”
E assim seguem o Teatro, a Vila Olímpica e seus clones: começa-se uma obra, não se termina, mas já se anuncia a próxima. Um ciclo vicioso de palanque, promessa e abandono — como se governar fosse apenas assinar ordens de serviço e contar com a amnésia coletiva.
O problema não é o atraso. É a eternização do inacabado. E, pior, é perceber que, no Brasil, quem aplaude no fim é só o esqueleto — porque o povo, este já desistiu de esperar e muitos, cansados da eternidade na terra, preferiram se eternizar em outra dimensão. Ou melhor: immigrare.
Nota de rodapé:
A palavra “immigrare”, do latim, significa “migrar para dentro”. Neste editorial, foi usada não como um termo geográfico, mas filosófico: representa a travessia da alma — do mundo visível ao invisível, do finito ao eterno. A morte, nesse sentido, não é somente o fim da vida, mas, a perda da esperança.
CR10 na área “BILANDO” a cidade.