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Dia dos Professores: entre o discurso político e o abandono de quem sustenta a educação

Salários insuficientes, sobrecarga de trabalho, adoecimento mental, falta de estrutura e responsabilização pelos resultados ruins expõem o abismo entre a importância dos educadores e as condições oferecidas à categoria

Célio Martinez
Por: Célio Martinez
15/10/2026 às 17h48
Dia dos Professores: entre o discurso político e o abandono de quem sustenta a educação

Celebrado em 15 de outubro, o Dia dos Professores deveria ser uma oportunidade não apenas para homenagear os profissionais que dedicam suas vidas à formação de gerações, mas também para refletir sobre as condições em que eles exercem uma das atividades mais importantes para o desenvolvimento de qualquer sociedade. Afinal, por trás das homenagens, dos discursos oficiais e das mensagens de reconhecimento, existe uma realidade que pouco combina com a importância atribuída à educação: professores desvalorizados, sobrecarregados, adoecidos e, em muitos casos, desanimados com as perspectivas da própria profissão.

Levantamentos que dão voz aos docentes revelam uma categoria insatisfeita com as condições de trabalho e preocupada com o futuro. Os relatos expõem dificuldades que vão muito além da remuneração e da estrutura física das escolas. Há profissionais que continuam na carreira pelo compromisso com os estudantes, pelo prazer de ensinar e pela esperança de transformar vidas, mas que já não encontram nas instituições, nas políticas públicas ou nos governos o mesmo compromisso que demonstram diariamente dentro das salas de aula.

Os números relacionados à remuneração, à formação continuada, à carga horária semanal, à saúde mental de professores e alunos, ao uso de tecnologias e à infraestrutura escolar ajudam a dimensionar o problema. Em muitas unidades de ensino, a realidade inclui mobiliário insuficiente, salas superlotadas, escassez de materiais pedagógicos e até falta de produtos básicos de higiene. Não se trata, portanto, de uma dificuldade isolada ou de uma simples insatisfação profissional, mas de um conjunto de problemas que compromete o ambiente de aprendizagem e desgasta aqueles que deveriam encontrar condições adequadas para ensinar.

É evidente que há diferenças entre escolas, municípios, estados e redes de ensino. Existem experiências exitosas, gestores comprometidos e profissionais que conseguem desenvolver um trabalho extraordinário mesmo diante das adversidades. Entretanto, o eixo central dos relatos de muitos docentes é semelhante: são profissionais responsáveis pela formação de dezenas de crianças e adolescentes, mas que não se sentem cuidados por quem deveria garantir as condições necessárias para o exercício da profissão.

O peso de uma responsabilidade sem o devido reconhecimento

Em salas de aula com mais de 30 estudantes, professores precisam lidar com diferentes ritmos de aprendizagem, realidades familiares distintas, dificuldades de comportamento e demandas pedagógicas cada vez mais complexas. Em determinadas situações, a falta de materiais obriga o próprio educador a retirar dinheiro do bolso para adquirir recursos indispensáveis ao desenvolvimento das atividades. O que deveria ser uma obrigação das instituições acaba se transformando em mais uma despesa para quem já enfrenta dificuldades para manter o orçamento familiar.

A sobrecarga também é uma realidade. Para complementar a renda, muitos profissionais assumem diversas turmas, trabalham em mais de uma escola e acumulam séries e disciplinas diferentes. O tempo que deveria ser destinado ao descanso, à família e à própria formação acaba consumido pelo planejamento das aulas, pela correção de atividades e pelo preenchimento de exigências administrativas.

A jornada de um professor não termina quando toca o sinal da última aula. Há trabalhos que continuam em casa, durante a noite, nos fins de semana e até nos períodos que deveriam ser reservados à recuperação física e emocional. O resultado é uma rotina marcada pelo cansaço e pela dificuldade de conciliar a vida profissional com as necessidades pessoais.

Nesse cenário, o adoecimento mental merece atenção especial. Ansiedade, estresse, esgotamento emocional e outros problemas relacionados à saúde mental representam desafios que não podem ser tratados como sinais de fraqueza individual. A pressão por resultados, a indisciplina, os conflitos no ambiente escolar, a falta de autonomia e a ausência de apoio adequado contribuem para um quadro de desgaste que afeta não apenas os professores, mas também os estudantes.

A situação exige políticas de prevenção, acompanhamento psicológico, valorização profissional e participação efetiva das famílias e das instituições na construção de um ambiente escolar saudável. Não é razoável exigir que o professor desempenhe simultaneamente os papéis de educador, mediador de conflitos, orientador emocional e responsável por solucionar problemas sociais que ultrapassam os limites da escola, sem oferecer a estrutura e o suporte necessários.

Quando os resultados são ruins, a culpa recai sobre o professor

Há ainda uma contradição particularmente perversa no debate educacional brasileiro: quando os indicadores revelam deficiências na aprendizagem, os professores frequentemente aparecem entre os primeiros responsabilizados pelos resultados.

Os dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), por exemplo, evidenciam dificuldades persistentes dos estudantes brasileiros em áreas fundamentais, como leitura e matemática. Os resultados exigem reflexão e providências, mas não podem ser analisados sem considerar as condições em que o ensino acontece, as desigualdades sociais, a infraestrutura disponível, a formação oferecida aos profissionais e as políticas educacionais adotadas ao longo dos anos.

Não se pode cobrar excelência de quem trabalha sem os instrumentos necessários para alcançá-la. Tampouco é justo atribuir exclusivamente ao professor a responsabilidade por problemas que envolvem decisões administrativas, investimentos públicos, currículos, gestão escolar e condições socioeconômicas dos próprios alunos.

Isso não significa ignorar a responsabilidade individual ou desconsiderar a necessidade de aperfeiçoamento profissional. Significa reconhecer que a qualidade da educação é resultado de um sistema e que nenhum sistema pode funcionar adequadamente quando seus principais agentes são submetidos a condições incompatíveis com as responsabilidades que lhes são atribuídas.

O discurso político e a realidade dos investimentos

A distância entre as promessas e a realidade também se manifesta na condução dos recursos públicos. Governos de diferentes orientações políticas costumam apresentar a educação como prioridade, mas as decisões orçamentárias nem sempre correspondem à retórica.

Em 2025, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou medidas de bloqueio e contingenciamento de despesas que, conforme os números apresentados no debate orçamentário, alcançaram R$ 31,3 bilhões no Orçamento federal, sendo R$ 10,6 bilhões bloqueados e R$ 20,7 bilhões contingenciados. É necessário distinguir, contudo, o volume total das medidas fiscais dos valores efetivamente retirados da área educacional: o montante global não corresponde, por si só, a um corte exclusivo na educação. Ainda assim, decisões de restrição orçamentária exigem transparência sobre seus efeitos concretos nos programas, nos investimentos e nos serviços públicos.

Durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), a educação também enfrentou cortes e restrições orçamentárias. Em 2022, por exemplo, bloqueios de recursos federais destinados às universidades e instituições de ensino provocaram protestos, manifestações e notas de repúdio de entidades acadêmicas. A comparação entre os governos deve considerar os valores, os períodos, as áreas atingidas e os efeitos de cada medida, sem ignorar que decisões fiscais podem comprometer a capacidade de investimento e funcionamento das instituições.

O problema, portanto, não deveria ser tratado como uma disputa de conveniência partidária. Se a redução de recursos para a educação é motivo de indignação quando determinada pelo adversário político, também precisa provocar questionamentos quando parte de um governo apoiado por setores que historicamente se apresentam como defensores da escola pública.

A coerência na defesa da educação exige mais do que manifestações seletivas. Exige acompanhar os orçamentos, cobrar a execução dos recursos, fiscalizar as políticas implementadas e avaliar os resultados efetivamente entregues à população.

Afinal, não basta anunciar investimentos ou divulgar programas com nomes atraentes. É preciso que os recursos cheguem às escolas, que os professores tenham condições dignas de trabalho e que os estudantes encontrem ambientes adequados para aprender.

O que ainda mantém os professores em sala de aula?

Apesar das dificuldades, muitos professores continuam trabalhando porque encontram nos estudantes a razão que os mantém na profissão. A alegria de uma criança ao aprender a ler, a satisfação de acompanhar a evolução de um aluno e a possibilidade de contribuir para a formação de cidadãos são elementos que dão sentido à atividade docente.

Essas motivações, entretanto, não devem ser utilizadas como justificativa para perpetuar o sacrifício dos profissionais. Vocação não paga contas, compromisso não substitui estrutura e amor pela educação não pode servir de argumento para normalizar a sobrecarga ou o adoecimento.

O professor não quer ser tratado como vítima permanente, nem espera reconhecimento apenas por meio de homenagens ocasionais. Quer respeito, remuneração compatível com sua responsabilidade, oportunidades de formação, condições adequadas de trabalho, segurança, autonomia pedagógica e políticas públicas capazes de transformar o discurso em resultados concretos.

Neste 15 de outubro, a melhor homenagem aos educadores não é uma mensagem protocolar nas redes sociais, uma cerimônia oficial ou um pronunciamento repleto de elogios. É a disposição de enfrentar os problemas que tornam a profissão cada vez mais desgastante e que ameaçam afastar das salas de aula justamente aqueles que possuem experiência, conhecimento e compromisso com a formação das novas gerações.

Entre promessas antigas e uma realidade que pouco muda

A educação brasileira continua presa a um ciclo de promessas, programas anunciados como inovadores e discursos que reaparecem a cada eleição. Mudam os governantes, mudam os slogans e mudam as estratégias de comunicação, mas problemas históricos permanecem: desigualdade de oportunidades, infraestrutura precária em parte das escolas, dificuldades de aprendizagem, remuneração insuficiente e falta de reconhecimento efetivo dos profissionais.

É nesse cenário que a velha política, inclusive aquela que se apresenta sob a bandeira da esquerda e reivindica para si o monopólio da defesa da educação pública, continua ampliando seus dividendos eleitorais em parcelas do segmento educacional. Parte desse apoio persiste apesar das contradições entre o discurso e as entregas concretas, alimentado por promessas que, há décadas, são reapresentadas com roupagens supostamente inovadoras e renovam a expectativa de um futuro promissor.

A crítica não significa negar avanços pontuais, desconsiderar iniciativas positivas ou atribuir a um único campo político a responsabilidade por todos os problemas da educação. Significa cobrar coerência de quem transforma a defesa do ensino público em bandeira eleitoral, mas nem sempre consegue demonstrar, na prática, mudanças proporcionais à dimensão das promessas.

O risco é que a educação permaneça refém de uma disputa em que os professores são celebrados nos palanques, responsabilizados pelos fracassos e esquecidos quando chega a hora de assegurar condições dignas para o exercício da profissão.

Neste Dia dos Professores, a pergunta que precisa ser feita não é apenas quanto a sociedade admira seus educadores, mas quanto está disposta a fazer para valorizá-los de verdade. Enquanto a educação brasileira conviver com o sucateamento de parte de sua estrutura e com a distância entre promessas e resultados, a velha política continuará colhendo dividendos eleitorais em um segmento que, muitas vezes, permanece anestesiado por discursos que se apresentam como renovadores, mas repetem, há décadas, a mesma falsa expectativa de um futuro promissor.

E, enquanto as promessas se renovam, são os professores que continuam diante do quadro, tentando fazer acontecer, com recursos limitados e sacrifícios pessoais, aquilo que os governos insistem em garantir apenas no discurso: uma educação pública de qualidade para todos.

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