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O PESO DA OMISSÃO: Amazônia em chamas, consciência em silêncio

Enquanto incêndios avançam, cidades sufocam e serviços públicos são afetados pela fumaça, o governo Lula e antigos protagonistas do discurso ambiental precisam explicar a distância entre a indignação de ontem e as respostas de hoje

Célio Martinez
Por: Célio Martinez
17/10/2026 às 08h21 Atualizada em 17/10/2026 às 08h28
O PESO DA OMISSÃO: Amazônia em chamas, consciência em silêncio

Por Célio Martinez - 17 de outubro de 2026

O fogo que consome a Amazônia não destrói apenas árvores, ameaça a fauna e compromete o equilíbrio ambiental. Também expõe contradições políticas, testa a capacidade de resposta do poder público e coloca à prova a coerência daqueles que transformaram a defesa da floresta em uma das principais bandeiras de mobilização nacional. Diante de cidades sufocadas pela fumaça, escolas fechadas e unidades de saúde afetadas, uma pergunta se impõe: onde estão os defensores do meio ambiente que, durante o governo Jair Bolsonaro, fizeram das queimadas uma das principais pautas de protesto no Brasil e no exterior?

Os números são alarmantes. Dados do Painel do Fogo, do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), vinculado ao Ministério da Defesa, apontavam 1.380 focos de incêndio no Amazonas nos dez primeiros dias de outubro de 2026, contra 372 no mesmo período do ano passado. Um aumento de 271%. Na sexta-feira (16), segundo reportagem do Jornal Nacional, da TV Globo, o total já ultrapassava 1.600 focos.

A dimensão da tragédia fica ainda mais evidente quando se observa onde o fogo está acontecendo. Segundo os dados apresentados, 1.186 ocorrências foram registradas em áreas públicas, 93 em propriedades privadas e 101 em áreas sem definição. No último sábado (10), o governo federal reconheceu situação de emergência em 36 municípios amazonenses, medida necessária para viabilizar o acesso a recursos federais destinados ao enfrentamento da crise.

Enquanto isso, Manaus e outras cidades da Região Norte convivem com uma fumaça que compromete a qualidade do ar, ameaça a saúde da população e interfere no funcionamento de serviços essenciais. Crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias estão entre os mais vulneráveis. Quando a fumaça obriga escolas a suspender atividades e unidades de saúde a enfrentar dificuldades, deixa de ser possível tratar o problema como uma questão restrita à preservação de árvores. Estamos diante de uma emergência ambiental, sanitária e humanitária.

A ajuda que demorou a chegar

A atuação do governo federal também precisa ser examinada com rigor. De acordo com reportagem publicada pelo site M5PORTS Brasil, o Amazonas solicitou auxílio à União em 18 de setembro, por meio de um pedido encaminhado pelo comandante-geral do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas, coronel Orleilso Ximenes Muniz.

A solicitação incluía quatro aeronaves com capacidade aproximada de 3.200 litros de água cada, destinadas ao combate direto às chamas, além de um avião para transportar equipes e equipamentos. Os bombeiros também pediram recursos para aquisição de viaturas, diante das dificuldades logísticas enfrentadas durante as operações.

Entretanto, conforme a reportagem, um ofício da Secretaria Nacional de Segurança Pública, vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, assinado em 1º de outubro, informou a impossibilidade de atender ao pedido naquele momento. Entre as justificativas apresentadas estavam a indisponibilidade de bens daquela natureza para doação e a impossibilidade de atendimento imediato à demanda.

“Dessa forma, registro a impossibilidade, no momento, de atendimento ao pleito, considerando, ainda, a indisponibilidade de bens dessa natureza aptos para doação”, afirma um trecho do documento citado pela publicação.

Posteriormente, o governo federal reconheceu a situação de emergência em 36 municípios, em uma medida anunciada como necessária para acelerar o apoio ao estado. A iniciativa merece ser considerada, mas não elimina a necessidade de esclarecer por que o pedido de socorro, apresentado ainda em setembro, não pôde ser atendido inicialmente e quais providências foram adotadas para suprir a falta dos equipamentos solicitados.

Em situações dessa gravidade, a população não precisa de disputas de narrativas, justificativas burocráticas ou anúncios que demorem a se converter em resultados. Precisa de bombeiros equipados, aeronaves disponíveis, recursos liberados e ações coordenadas para conter as chamas. O reconhecimento da emergência é um passo importante, mas não apaga o tempo perdido nem substitui o combate efetivo ao fogo.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que fez da defesa da Amazônia uma bandeira política e criticou duramente Jair Bolsonaro pela condução da política ambiental, tem a obrigação de demonstrar que seu governo está à altura da responsabilidade que reivindicou. Não basta discursar em defesa da floresta em conferências internacionais, reafirmar compromissos climáticos ou anunciar metas ambientais. É necessário garantir que a estrutura do Estado funcione quando a emergência acontece.

A mesma cobrança vale para os governos estaduais, que precisam fortalecer a prevenção, a fiscalização e a capacidade de resposta dos órgãos responsáveis. A dimensão do problema, entretanto, exige cooperação entre estados e União, pois incêndios dessa magnitude não respeitam fronteiras administrativas nem esperam que os governos concluam seus trâmites burocráticos.

O silêncio seletivo dos ambientalistas

Mas há outra questão que merece reflexão: o silêncio de setores que, em outros momentos, demonstraram extraordinária capacidade de mobilização diante das queimadas.

Durante o governo Bolsonaro, incêndios na Amazônia ocuparam manchetes, alimentaram campanhas nas redes sociais, motivaram manifestações de artistas e provocaram cobranças de organizações ambientais nacionais e internacionais. Celebridades, ativistas e integrantes de movimentos identificados com a esquerda fizeram da defesa da floresta uma bandeira permanente de pressão política. A atuação de organizações não governamentais também ganhou visibilidade no debate público.

Naquele período, as críticas ao governo federal eram legítimas e necessárias. Nenhum governante deve ser poupado de cobranças quando a preservação ambiental está em risco. O problema surge quando a indignação parece depender de quem ocupa a Presidência da República.

Onde estão, agora, os artistas que gravavam vídeos e mobilizavam seguidores em defesa da Amazônia? Onde estão as campanhas nas redes sociais, os pronunciamentos indignados e as manifestações daqueles que transformaram as queimadas em símbolo de resistência política? Por que a pressão pública não parece ter a mesma intensidade diante de números tão preocupantes?

As organizações ambientais e as ONGs que atuam na região também precisam manter sua vigilância, independentemente da orientação ideológica do governo de plantão. Da mesma forma, a imprensa deve investigar, questionar e informar sem escolher quais tragédias merecem destaque de acordo com suas preferências políticas.

Não se trata de afirmar que todos os ativistas, artistas, jornalistas ou organizações estejam em silêncio, nem de ignorar iniciativas que eventualmente estejam em andamento. Trata-se de questionar a aparente perda de intensidade de uma mobilização que, em outros momentos, foi apresentada como urgente e inegociável.

A defesa do meio ambiente não pode funcionar como instrumento de conveniência partidária. Se a floresta merece proteção sob um governo de direita, também merece sob uma administração de esquerda. Se as queimadas são motivo de indignação quando o presidente é Bolsonaro, devem provocar a mesma reação quando o presidente é Lula.

O contrário transforma uma causa coletiva em ferramenta de disputa política e compromete a credibilidade de quem afirma defender o interesse público acima de qualquer ideologia.

Os números não permitem complacência

O cenário atual não surgiu do nada. A temporada de estiagem aumenta o risco de incêndios florestais em diferentes regiões do país, mas as condições climáticas não explicam, isoladamente, toda a dimensão do problema. Desmatamento, fragmentação da floresta, uso irregular do fogo, ocupação desordenada do território e falhas de fiscalização podem contribuir para agravar a situação.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), por meio do Programa Queimadas, registrou 216.890 focos de incêndio no Brasil em 2024, um dos números mais elevados da série histórica. A Amazônia Legal esteve entre as regiões mais afetadas. Esse cenário já demonstrava a gravidade do desafio ambiental enfrentado pelo país e a necessidade de políticas permanentes de prevenção e combate.

Os dados referentes a 2026 reforçam a preocupação. Segundo os números mencionados no levantamento que fundamenta este editorial, o Amazonas acumulou 6.811 focos entre 1º de janeiro e 5 de outubro, alta de 101% em relação ao mesmo intervalo de 2025. A evolução dos registros exige atenção, transparência e investigação sobre as causas de cada ocorrência.

A floresta amazônica não pode ser tratada como patrimônio de um partido, assim como sua destruição não pode ser relativizada para proteger aliados políticos. O Brasil tem compromissos ambientais que ultrapassam mandatos presidenciais e interesses eleitorais.

A floresta não tem partido

A sociedade brasileira precisa superar a lógica segundo a qual reconhecer um problema significa favorecer o adversário político. É possível criticar Bolsonaro pela condução da política ambiental de seu governo e, ao mesmo tempo, cobrar de Lula por eventuais falhas de prevenção, demora na liberação de recursos ou insuficiência de ações diante das queimadas atuais. Uma cobrança não anula a outra.

A mesma coerência deve orientar a imprensa, os artistas, as ONGs, os movimentos sociais e os cidadãos. O jornalismo não pode transformar-se em militância seletiva, assim como o ativismo não pode depender da conveniência ideológica de quem governa. A liberdade de crítica perde força quando se converte em instrumento de proteção para aliados e de perseguição permanente a adversários.

O governo Lula precisa demonstrar, com ações concretas e resultados verificáveis, que a defesa da Amazônia não se resume a uma bandeira de campanha ou a discursos dirigidos à comunidade internacional. Os governos estaduais devem fazer sua parte, os órgãos de fiscalização precisam atuar e os responsáveis por incêndios criminosos devem ser identificados e punidos, respeitados os procedimentos legais.

A população, por sua vez, não pode aceitar que a fumaça que encobre cidades inteiras seja acompanhada por uma cortina de silêncio político. O que está em jogo não é a reputação de Lula, Bolsonaro ou qualquer liderança partidária. É a saúde de milhões de brasileiros, a sobrevivência de espécies, o equilíbrio climático e a preservação de um dos maiores patrimônios naturais do planeta.

Durante anos, o país ouviu o alerta de que não se poderia deixar a boiada passar enquanto a floresta era destruída. A advertência continua válida. Mas a coerência exige reconhecer que nenhuma boiada deve passar despercebida, independentemente de quem esteja no comando do país.

A Amazônia não vota, não escolhe presidentes e não participa de disputas partidárias. Ainda assim, paga um preço alto pelas decisões — e pelas omissões — de todos eles.

O fogo não escolhe ideologia. A fumaça não respeita partido. E a defesa do meio ambiente não pode ter dois pesos e duas medidas.

Célio Martinez - Reg. Prof. Nº 925

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